Opiniões Preto&Brancas

“A verdade tem várias facetas” , Dr. QI, A Droga da Obediência.Imagem
Li esse livro com oito anos de idade. Logo que aprendi a ler pedi pra minha irmã ir na biblioteca pública do meu bairro, pegar alguns livros e um dos livros que ela me trouxe foi a “Droga da Obediência”, e a turma dos Karas se tornou minha nova meta de vida.

Quando li essa frase na inocência dos meus oito anos, achei que tinha compreendido a frase, era bem simples eu pensei, e me indignei em como os “adultos” subestimam a capacidade das crianças em entender algumas verdades da vida.
Bom, “a verdade tem várias facetas”, pensei “a história nunca tem um só lado”, e a partir daí aprendi a ouvir os dois lados de um fato. Acho que de certa forma isso me tornou um ser humano melhor, se não, ao menos menos intolerante. Mas, ainda sim, o Dr. QI era mal, dele nunca viriam boas atitudes. E da turma dos Karas, nenhum teria más escolhas, ou más atitudes, o bem era inerente a eles.Na minha cabeça, eu tinha que ouvir os dois lados da história,  porque só assim o julgamento de quem era mal e bom ia ser realmente justo, mas o bem e o mal era como água e óleo, jamais se misturavam.
Fomos criados e postos pra dormir de maneira maniqueísta, o mal não tem motivo pra ser mal, ele é e ponto. E o bem bem no final vai vencer, foi assim com as princesas, com Alladin, é assim nos filmes que eu vimos na Sessão da Tarde,  e é assim nos desenhos. 

Ai crescemos um pouquinho, viramos adolescentes cheios de ideais pra que lutar, cheios de “ISSO É BOM, ISSO É MAL”, “isso é cultura, isso é lixo”, “eu sou informado, você é alienado”, “a culpa é da sociedade e dos malditos direitos humanos” “nunca vou fazer isso”, e o único critério pra esses julgamentos são o alto do próprio ponto de vista. Claro, que eu era diferenciada, “cabeça aberta”, eu tinha que ouvir os todos os lados, pra ai sim definir o que era bom e mal, assim preto no branco, sem crise. Minha bandeira era um “ACOMODADOS” em letras garrafais e meu hino de guerra era Ideologia, do Cazuza: “Pois aquele garoto. Que ia mudar o mundo. Mudar o mundo. Agora assiste a tudo. Em cima do muro. Em cima do muro!”. 

Ai eu cresci um pouco, bem pouco na verdade, todas as coisas que eu julgava errada eu fiz, algumas coisa que fiz não considero mais errado e algumas continuam sendo, mas eu sou uma pessoa má por isso? Não acho que eu ter feito algo, anula isso do código moral e gera selo de validade “agora é certo”, o que quero dizer que as atitudes são mais cinzas que “preto e branco”.
Entrei na faculdade de Direito e a primeira coisa que aprendi é que não existe lei absoluta, que SEMPRE vai se aplicar a TUDO, nem mesmo os tais direitos humanos são. Exemplo: pena de morte não é permitido no Brasil (pra infelicidade da classe “preto e branca” que não percebe que a vida é bem mais cinza), mas em tempos de guerra é permitido. Pra um juiz dar sentença ele precisa analisar o caso concreto, ver suas peculiaridades, se afundar no mundo real cinzento e ai procurar uma lei que pareça um pouco com o fato concreto e mesmo assim, a sentença não é 100%. Porque não existem 100% e 0%, não há certezas quando se trata de seres humanos, somos complexos. 
Na faculdade quando estudei teorias da justiça, optei pelo “meio termo” em teorias divergentes, porque cada uma explicava e poderia ser boa em certos casos e causar estragos irreversíveis em outros.  Eu ficava em cima do muro, porque optar por um lado só, era desconsiderar o outro, era não ver que o mundo é cinza demais e precisamos ser maleáveis se não quebramos e em certos casos precisamos ser fortes e irredutíveis.
Então, hoje no auto dos meus 20 anos, com uma experiência mínima, procuro não julgar. Não julgar não significa achar correto é só ter em mente que se você tivesse as mesmas opções da pessoa, e tivesse passado pelas mesmas experiências você agiria diferente? E mesmo que sim, duvido que você julgaria.

A maioria dos meus julgamentos eu cuspi pra cima e to  limpando até hoje o rosto dos efeitos. Então Cazuza, essa garota que queria mudar o mundo, ainda quer, mas percebeu que em cima do muro somos mais justos na mudança.

atencisamente,
Keyla

Pós-Texto: Tá vendo, você sempre achou que o comodismo era um defeito e eu fiz no mínimo você refletir no oposto. Desse texto posso citar dois autores que sintetizam meu pensamento:

“Só sei que nada sei”, meu querido Sócrates
“Justiça é tratar os iguais igualmente e os desiguais na medida da sua desigualdade”, Aristóteles, o fantástico. Sendo, essa última frase a máxima que resume meu texto, é preciso analisar a realidade cinza, nada é tão igual ou desigual.

 

Não se atreve a me dizer do que é feito o samba, nem se atreva…

“Hum, isso aqui é onde você reina solitária?”

O tom de voz sempre sarcástico, acho que de alguma maneira ele espera que isso me afete de uma maneira negativa, mas eu gosto tanto do seu humor auto-depreciativo e sua ironia pontual que não consigo não sorrir.
“Não reino sozinha, e também não reino com gatos, não sou a tiazinha que mora com gatos”
“É que você ainda é bonita demais pra isso, mas nada que dez anos, mais dez kg e o cigarro não dêem um jeito”
A barba dele estava ainda mais por fazer, sua blusa amarrotada e sua cara de desdém por mim superavam níveis astronômicos hoje, o beijei e ele revirou os olhos, suas mãos sem delongas percorreram meus cabelos e susurraram “bonita demais”, meu corpo arrepiou, ele me trouxe pra mais perto dele e afastou me apenas o bastante pra rir e perguntar se tinha trago ele até meu “palácio” pra barrá-lo na porta.
“Bom eu deveria realmente fazer ficar ai fora, você está com mais cara de sujo do que de costume”
“Hum, posso tomar um banho ai se você quiser, se quiser me acompanhar também – ele cheirou todo meu pescoço eu apertei seu braço, ao chegar no meu ouvido ele completa – Você também não está nos seus melhores dias, querida.”
Eu ri, eu realmente adorava até mesmo quando ele me julgava, abri a porta e revelei meu apartamento pra ele
“Pode entrar rapaz, não tem gatos, cachorros ou plantas, só móveis”
“Porque nada disso?”
“Nada disso o que?”

“Nenhum ser que faça divisão celular aqui na sua construção de gelo?”
“Plantas: não tenho porque nunca sei o quanto de água por, gatos e demais animais eu acho que devem viver livres e fofos e não me vendo apenas umas três horas por dia que é o tempo que passo aqui dentro”
“Porque as outras 21horas você trata de infernizar minha vida né? Já pensou que se você tiver um lindo gatinho minha vida seria mais fácil?”
“Nenhum deles é irônico ou mau humorado  igual você, se eu tivesse um gato levaria ele até seu apartamento”
“Porque você me trouxe aqui?”
Seu olhar me encarava um pouco me julgando, um misto de confusão, alegria e na sua face estava claro “eu deveria mandar essa gúria pros diabos”.
“Ué poeta, porque você não me manda?”
Ele ficou perdido com a pergunta, deu de ombros e fez um “quê?” silencioso com os lábios
“Porque você não me manda pros diabos”

Seus olhos se nublaram, os ombros cairam e ele despencou numa cadeira próxima, pos os dedos a percorrerem os lábios e o queixo, me encarou sem levantar a cabeça:
“Bom eu deveria, Deus sabe que eu deveria mandar você sair da minha vida, deveria parar de ver esse monte de cabelo ai por onde ando, parar de sentir a porra do seu perfume doce no meu lençol. Mas, olha que demais? Eu ainda estou aqui pra você me infernizar e passar esse troço preto e cacheado em mim, aproveite, é só hoje: OPA NÃO! A pessoa do “só hoje” não sou eu.”
“Isso realmente te afeta né? Isso tudo, os encontros por acaso, essa história que te faz ter fé no amor, mesmo sendo ele imprevisível? Esse jeito de amar novo, esse pra sempre que te apresentei e não convencional te assusta. É isso é: A-M-O-R, você não vai me ver todos os dias, eu não vou procurar você todos os dias, você não vai ter esse monte – mexo no cabelo – “coisa preta e confusa” todos os dias passeando por seu apartamento, eu não vou cozinhar pra você todos os dias, só os que eu tiver vontade, eu não sou o ideal de mulher que você quer envelhecer, nem aquele clichê que todo hollywood block buster mel com açúcar da santa que vai casar de branco. Mas, e ai? Seu conceito de amor é baseado na porra de um conto de fada? O QUE É ETERNIDADE PRA VOCÊ? A vida se baseia em lembranças, do que me adianta ficar casada a porra de vinte anos se no dia-dia nem me lembrar de quem tá meu lado. ESSA É SUA IDÉIA DE AMOR? ISSO É ETERNO, SÓLIDO E VERDADEIRO? Ou nós dois, mesmo eu sendo uma variável na sua vida, você mesmo me falou que lembra do meu perfume né? Eu me recordo sempre da sua barba que te deixa sem credibilidade, lembro do seu cheiro, da forma como você anda, da forma como sua boca passeia pela minha pele E VOU LEMBRAR SEMPRE DISSO, mesmo que você me mande pros diabos hoje, e fim, mesmo não te tendo mais eu saberei que o que tivemos É ETERNO. ISSO É ETERNO, RECORDAR É ETERNO. Eterno não é ter alguém sempre, isso é POSSE…”

Ele se levantou tentou me abraçar, eu estava insana, tantas cobranças, tantos “e se’s”, o amor é tão mais simples, ele é tudo, TUDO, não tem jeito certo de viver o amor, ou sentir o amor, não é um casamento de 20 anos que se traduz o amor, mas pode traduzir também, droga…
Me afastei do abraço e deixei ele ali me encarando, fui até a sacado acendi meu cigarro, fechei meus olhos, ele se aproximou, mas estava distante o bastante, só me encarava. Na rua alguns adolescentes ganhavam a vida e gritavam alguma coisa “obscena”. Acabei meu cigarro, arremessei a bituca na rua e fui me encaminhando pro sofá onde tinha deixado minhas coisas, peguei meu casaco e minha bolsa, ele apressou o passo e parou diante de mim.
“Tem comida na geladeira, a toalha tá no armário do lado da cama, toma um banho e pode dormir aqui, deixa a chave com o porteiro quando sair”
“Aonde você vai?”
“Sair”
Escutei ele chutar algo.
Fechei a porta e desci dois lances de escada, cumprimentei Geraldo na portaria, o vento sacudia meus cabelos, ajeitei o cachecol, acendi o cigarro e ganhei as ruas.

– Musa

http://www.youtube.com/watch?v=EHHT1yyGquQ

A sua maneira

“Hum… Nossa dormi”
“É…”

“Sempre durmo, desculpa, dormir é realmente muito bom.”
“Você sempre persegue e dorme com desconhecidos?”
“Na verdade, não. Bom… Não até hoje”
“Tudo bem, eu até hoje nunca tinha sido perseguido uma centena de vezes e depois dessa centena de vezes dormido com uma mulher que só sei que gosta de ler sozinha em sebos”
Ela se levantou, olhou ao redor, apagou a luz e ficou me encarando no escuro e ficamos assim, nos encarando por um tempo, ela se aproximou e me beijou por uma eternidade de tempo, riu, ajeitou aquele monte de cabelo, suspirou e falou:

“Bom, na verdade eu não te persegui, foram encontros casuais, e acho que te conheço a umas vidas, então tudo bem”
” Em alguma delas você era apaixonada por mim?”
“Em todas elas”
Ela se ajeitou em mim, pos a cabeça no meu ombro e eu estava ali, como todas as vezes rendido. Daqui a uns trinta anos, eu vou estar no apartamento, ouvindo meus blues, ou jazz ou samba não sei, sentindo cheiro de macarrão e contando pros meus netos sobre ela, sobre sua pele clara e seus cabelos escuros, sobre seu jeito perdido e sobre como eu não sabia realmente nada sobre ela, mas ainda sim a amava. 

A voz rouca de semi-acordada me interrompeu:
” E você em quantas das vidas se apaixonava por mim?”
“Só nessa, não acredito muito em outras vidas, a gente morre e pronto.”
“Hum… Você está apaixonado por mim?”
“Estou, mas isso não é lá grande coisa já que você só resolve me perseguir de vez em quando.”
Ela se levantou, fez daquilo tudo que ela chama de cabelo e eu chamo de feitiço brabo um coque, uns fios caiam sobre os olhos dela e ela me encarava, me julgando a sua boca ficou séria e ela suspirou, eu me atrevi a mexer nos cabelos dela.
“Só porque eu não sou uma constante na sua vida, “não é lá grande coisa”?

“Não. É porque você me enlouquece mesmo, viver uma vida no aguardo de onde você vai surgir e o que teremos a seguir não é muito saudável.”
Merda… Seus olhos me encaravam e nele estava um tristeza calma, uma melancolia contida
“Você quer que eu vá?”
“Nessa “relação” – eu desenhei aspas com os dedos – não sou eu que decido.”
Ela rio, pegou meus dedos e ficou segurando e olhando pro teto, deitada no meu peito
“Esse é meu lugar favorito no mundo…”
“Meu apartamento não quitado e mal arrumando?”
Ela rio: “Não… Você é”
Merda, eu sabia que estava falando demais, a gente nunca falava demais, ela aparecia, eu a amava, ela sumia, mas enfim hoje ela era minha, e eu com ela só tinha o hoje então meio que foda-se, porque nada do que eu falasse ia fazer ela ficar no meu apartamento não quitado e mal arrumado:
“Até quando eu vou ser seu lugar favorito no mundo?”
Ela se levantou e estava sob mim, seus cabelos agora estavam soltos e espalhados no pescoço branco e fazendo cócegas no meu rosto.
“Não sei…”
Ela me beijou, se aninhou em mim de novo e dormimos, quando eu acordei ela não estava mais lá.
E eu só conseguia pensar na música do Capital “A sua maneira”, fechei os olhos, acendi meu cigarro e fui trabalhar.

– Poeta

Estava com saudades de escrever, principalmente de escrever como o poeta, então minha faculdade deu um tempo e eu resolvi escrever.
O tal filme que ia retratar a vida do poeta e da musa eu realmente adiei por motivos de: estou empregada, estou com a faculdade me pirando e é isso, dois grandes motivos. Mas, não desisti e ainda me falta o poeta, quem quiser estamos ai

 

E tudo se resume: A PORRA DA BARBA

Imagem

E é assim que meus dias se resumirão? Lutar contra a lembrança daquele amontoado difuso-confuso de cabelos pretos? Parece que a resposta é um distinto e sonoro “SIM”.
Acendo meu cigarro na rua na esperança de ver o fantasma recorrente dessa mulher cruzar comigo. A fumaça emoldura minha noite e confunde meus pensamentos. Que espécie de maníaco eu sou? Achando que aquela desconhecida, linda, porém desconhecida, vai adivinhar justamente a rua que estou parado dentre tantas em São Paulo e vir ao meu encontro. O destino não ia ser tão meu camarada, se fosse eu já ia ser autor de uns três best-sellers e não autor de contos com uma única e especial fã: minha mãe.
Queria ter um ritual pra invocá-la, vou anotar mentalmente pra ver se pesquiso no google quando voltar pro meu apartamento.
Lembro-me de quando em dos nossos imprevisíveis encontros, se não me engano foi no dia que eu tava tentando achar “O Processo”, do Kafka no Sebo lá na Sé e ela tava sentada no chão lendo alguma coisa sobre teoria de sonhos ou qualquer coisa do gênero com cara de concentrada. É foi nesse dia mesmo… Meu coração acelera somente de lembrar. Meu corpo paralisou e eu quase me besliquei pra ter certeza que não tava sonhando e imaginando ela sentada ali lendo qualquer coisa, fazendo do mundo seu sofá de casa. Oficialmente eu estava paralisado, eu que nunca tive problema de timidez com o sexo oposto, até porque minha cara de largado e de “sou cafajeste e não ligo pra você”, sempre foi fórmula certa pra conseguir alguns sucessos no ramo, mas ali estava eu sem conseguir falar com ela. Ela deve ter sentido meu olhar cravado nela e levantou o rosto do livro e me encarou e abriu aquele sorriso só dela:
– Olá rapaz! – Se levantou ligeira e se apossou do livro em minhas mãos. – KAFKA! Eu amo Kafka, vai amar com toda certeza…
Consegui fazer com que a opção dizer palavras com algum sentido fosse ligada e claro, observando de fora essa memória soa muito mais bobo e ridículo do que quando pensei na hora:
– Meu Deus você… Aqui… Sim, gosto de Kafka… Sério? Você aqui?
Ela ri:
– Poxa rapaz, sim sou eu aqui, lendo algo sobre Freud e entendendo que tudo no universo acaba em sexo e você…
– Sou cara que anda se encontrando por acaso com uma completa desconhecida que rouba meus cigarros e acaba de descobrir que tudo no mundo acaba em sexo.
– Bela resumo do que sou. – Ela ri de novo, pega meu livro de minha mão e se encaminha para o caixa.
Abre a bolsa e pega a carteira e entendo de imediato o que ela vai fazer:
– Calma, o livro é meu, gostaria muito de me deleitar com a leitura e você poderia muito encontrar outro exemplar, bem ali – E aponto o dedo para uma estante onde encontrei meu adorado Kafka.
– Não vou roubar, vou te dar de presente. – Ela se dirigi ao atendente. – Quanto custa? Dez?
Tento não fazer uma cena quando toda feliz ela paga e me entrega o presente. Sou completamente hipnotizado quando ela abraça meu braço e me conduz pra fora do sebo.
Andamos pelas ruas do Centro Velho de braços dados e claro, faço a pergunta que quero fazer desde que botei os olhos naquele emaranhado de cabelos e confusão:
– Qual seu nome?
Ela ri e abraça mais forte meu braço, para, passa mão na minha barba
– Eu sou tua musa, e você é um poeta que resolveu perder umas noites comigo. Prazer.
Bela definição, ponto pra musa.
– Então musa, porque eu? – Afinal tem vários fálidos que resolveram seguir os próprios sonhos e achou a fantástica fábrica de sonhos fechada e sem o Willy Wonka.
– Por causa da sua cara de pecador que ostenta essa bela barba.
AH! A barba… Agora me recordando desse dia, posso entender o motivo atual desse meu desespero. A PORRA DA BARBA! Encontro-me refém de uma mulher, que se interessou por mim por causa da barba, e desde o dia que coloquei os olhos nela naquela cafeteria não consigo pensar em outra coisa a não ser nela. Todos meus versos são pra ela, cada pensamento é nela, já não como, não durmo, não fumo sem ser pensando nela e tudo isso porquê? A PORRA DA BARBA!
Esse constatação me faz parar de relembrar esse tal encontro no sebo. Vejo uma Loja aberta, dessas que vendem de tudo, do outro lado da rua e tomo uma atitude… A barba! O que antes me rendia umas boas noitadas agora anda me castrando, pois qualquer mulher é muito normal perto da tal musa, já não me interesso por nenhuma outra, e tudo porque? BARBA! Entro decidido na loja e me dirijo ao setor de perfumaria e num gesto simbólico pego uma lâmina de barbiar, a encaro como se fosse um portal pro mundo real, onde lindas estranhas não entram por acaso na sua vida e te deixam sem ar e me dirijo ao caixa.
Sigo encarando a lâmina de barbear e imaginando quão simbólico e libertador será quando eu me livrar da barba e ai eu encaro o caixa a minha frente e meu corpo gela e se paralisa:
– Olha, eu só tenha R$7,50, droga, não tem como me dá um desconto? Preciso mesmo desse cigarros…
O mesmo pescoço bem talhado, o mesmo coque de cabelos pretos confusos, a mesma voz. Encaro a lâmina, encaro ela.
– Alguém querendo ajudar uma moça a destruir seu pulmão me empresta, 0,5 centavos?
Ela se vria impaciente e lá estou eu sem saber interagir com ela. Seu olhar me fita, ela sorri e seus olhos descem até minha mão. Como se eu tivesse carregando uma arma ela me fuzila com os olhos e se dirigi a atendente do caixa:
– O universo quer me impedir de fumar, esquece, desculpa…
Ela decidida se vira em minha direção, sorrindo pega a lâmina de barbiar, deposita juntos as revistas que cercam o caixa, me abraça forte e sai me conduzindo pra fora da loja.
– Oi poeta, senti saudades, tava pensando em ti, pensei tanto que vim comprar cigarros e olha quem eu encontro! Coincidência né? E ainda te livro de cometer um erro trágico: ou se matar ou tirar a barba, sinceramente não sei qual seria pior.
NÃO PODE SER!!!
– Você surge D-O N-A-D-A, é algo assim contra mim? E minha barba agradece sua intervenção divina.
Ela nos para em frente a um poste de luz, acaricia a barba:
– Nossa, você precisa conhecer um lugar…
E sai me conduzindo e eu a sigo hipnotizado, e lá vamos nós de novo…

– Poeta

Entre cafés e cigarros

Eu estava cansado de me perder, cansado da mesmíce das conversas e do mesmo tipo de mulher, todas “não querendo compromisso”, todas “liberais”, todas “modernas” e todas querendo um super-herói pra salvá-las inconscientemente. E esse cara, definitivamente, não ia ser eu.
E lá estava eu de novo, vagando pelas ruas de noite, trombando com conhecidos e desconhecidos que sorriam. Eu estava chapado demais pra não sorrir, meus amigos riam ao meu redor e eu bebia mais um gole daquele vinho comunitário, nós dominávamos a rua e eu tentava dominar minha mente que teimava em ficar ali, presa na realidade. Odeio admitir mas esse vazio, esse nível de inexistência de sentimentos, já me cansou. É muito útil pra evitar se machucar, porém, parte da poesia da vida se perde sem ter alguém para que o pensamento repouse e o que mais me deixa em desespero é que, por mais que eu tente, por mais que eu queira, nada ou ninguém é o bastante pra me preencher e estou cansado até de imaginar situações em que “opa, totalmente sem querer encontrei minha alma gêmea”.
Paramos num posto de gasolina, comprei uma cerveja e meus cigarros e decidi continuar sozinho, despedi-me de todos e continuei vagando. Respondi umas três ou quatro vezes que ia pegar um ar e desisti de explicar uma quinta pra uma guria muito bêbada que me confundiu com o poste uma ou duas vezes.
Acendi o cigarro e vaguei meio sem direção, tentando ordenar e desenhar no vento as possibilidades que poderiam preencher esse maldito vazio, mas minha Heineken já estava no fim e meus desenhos no ar se perdiam confusas na fumaça do meu cigarro.

Me deparei com um café 24 horas, fracamente iluminado numa rua movimentada já que estava de madrugada e entrei pra me refugiar do frio e tomar algo decente, que se não me evitasse a ressaca ao menos me curaria do frio paulistano…

“Um pingado, por favor”, minha voz saiu rouca e entrecortada pelo frio.

Eu encarava o balcão em que eu tinha me ancorado, como se nele viessem a resposta que eu tanto procurava. O copo plástico de 50ml foi posto em minha frente e o vulto de quem quer que seja saiu pra atender outro bêbado mau humorado. Encarei o local e me assustei ao ver que não parecia o boteco que imaginei, era uma cafeteria bem arrumada, com mesas privadas em “box” e onde as cadeiras eram sofás, uma junkebox tocando blues, o próprio balcão que eu encarava e as cadeiras eram em estilo americano, a iluminação pálida, a música me levando a tamborilar os dedos pelo balcão… Enfim paz.
Decidi pegar mais um café e me desmoronar num dos simpáticos sofazinhos-cadeira que o lugar ostentava e vi quando um amontado desconexo de cachos pretos passou por mim, pediu um duplo sem açúcar e voltou pro canto mais afastado do lugar.
Por mais que eu quisesse, não consegui tirar os olhos dela, os cachos pretos foram habilmente amarrados em coque deixando alguns fios soltos dando uma visão livre pro pescoço muito branco. Seus olhos encaravam o livro a sua frente e sua atenção estava totalmente absorvida por aquele escrito. O café foi posto em sua frente e o sorriso mais calmo brotou de seus lábios. E lá estava ela, uma desconhecida, linda e despreocupadamente sentada como se estivesse no sofá de casa, sendo rainha de seu próprio mundo e aqui estava eu, invejando a atenção que ela concedia ao livro.
Dediquei assim o resto da madrugada a observar cuidadosamente cada mínima impressão que era talhada em sua face enquanto ela era absorvida por aquele universo. Sorria quando percebi as covinhas formadas quando suas sobrancelhas se juntavam e da forma como ela fechava o livro e os olhos apressadamente e tomava o café como para adiar alguma parte indesejada da leitura.
Fui desperto desse transe ao vê-la fechar o livro, colocar uma nota de dez no balcão e sair pela noite.

cigarro2

Apressei-me, não sei bem porque e decidi seguir a desconhecida leitora de cabelos muito pretos pela madrugada, a vi acender seu cigarro e ganhar as ruas com passos calmos. Seu corpo pequeno, parecia que ao menor vento podia sair andando mais depressa, acendi meu cigarro e continuei a trilhar seus passos certos. Ela parou e começou a encarar a noite, virou-se em minha direção e encarou, não sei bem ao certo por quanto tempo, pois aquela unidade de tempo pasou. Conseguia apenas ver os olhos castanhos encarando-me e uma calma indescritível vindo deles, um brilho, uma alegria, um sentimento bom que ainda não se nomeou emanavam daqueles olhos. Ela soprou a fumaça no ar e pediu mais um cigarro, mecanicamente o estendi pra ela e suas mãos muito frias encostaram em mim e nós continuamos ali, dividindo a noite, a fumaça e nada mais.

Ela acabou o cigarro, olhou pra mim com aqueles olhos intensos e disse:
“São Paulo é mágica, hãn? Nenhuma cidade transpira mais poesia ou desperta mais sonhos… Obrigado pelo cigarro e a propósito: bonita barba”.
Não consegui achar palavras que a fizessem ficar, na verdade nada falei, ela calmamente se levantou e entrou na estação de metrô e sumiu na noite.

Teorizando sobre Inception

Já falei em um texto que amo livros que desafiem minha mente, porém eu amo filmes que me façam ficar pensando semanas, meses e anos depois sobre a trama, e esse é o caso de INCEPTION, revi de novo nesses últimos tempos e só consigo pensar “que filme do caralho”, ai eu e meus amigos estávamos trocando artigos e teorias e eu acabei com essas conversas bolando uma teoria minha a respeito do assunto.
Você que não assistiu, mesmo sendo um filme que você NÃO DEVERIA MESMO DEIXAR DE ASSISTIR, não leia porque você não vai entender nada e depois de lido  você terá uma visão condicionada sobre o filme  e vai te privar de umas das melhores partes do filme que é: CONSPIRAR. Então faz favor, fecha esse artigo e veja o filme, depois volta e lê e se perca dentro do universo do filme.
ImagemO roteiro do filme demorou dez anos pra ser escrito e essa ideia foi pensada por  dezesseis anos, Christopher Nolan ficou analisando essas idéias por todo esse tempo, encaixando, revendo, aprimorando todos esses anos até termos a obra prima que é esse filme, então todo detalhe é importante e eu parto do pressuposto que nada nesse filme é coincidência ou acaso, Nolan não ia deixar o filme dele ficar cheio de furos depois de dezesseis anos…
O filme trata de uma forma inovadora de espionagem através dos sonhos, nas primeiras cenas, mostra Dom Cobb (Leonardo DICaprio) invadindo o sonho de  um poderoso empresário japones e no meio da cena, aparece a falecida esposa dele, Mau, e acaba provocando uma série de desentendimentos  e que mostram a Saito que ele está sendo enganado, ou ele sempre soube, a questão é que nesse momento Mau atira em Arthur (Joseph Gordon-Levitt), no plano da realidade Arthur nada sofre físico, mas em sua mente ele sente a  dor e pra evitar essa dor Cobb decide matá-lo, pois assim Arthur  acordaria no plano real e se livraria da dor. Para se acordar  de um sonho é preciso que você morra no sonho ou seja despertado por uma pessoa que está no plano real.
No decorrer do filme, eles  vão mostrando o conceito de sonhos em várias camadas, um sonho dentro de outro, dentro de outro… E em cada camada você tinha que ser despertado por alguém que estivesse uma camada acima até você chegar na realidade e acordar.
Mas, quando eles estão executando o projeto central do filme, que é a missão dada por Saito de implantar uma ideia (Inception) na cabeça  de Robert Fischer (filho do empresário concorrente que está moribundo), Saito acaba levando um tiro e a equipe pensa “poxa vamos atirar e evitar a dor do Saito”, mas Cobb fala que o como esse  projeto exigem três camadas de sonho, ele não ia ser despertado com a morte, mas cairia no limbo, o limbo é a última camada de sonhos, então Saito fica sofrendo porque a morte não adianta, ele terá que ser despertado por algo provindo da realidade, um “chute”, uma música, algo vindo do plano real, no mesmo esquema, cada camada um chute diferente e pra ultima algo vindo do plano real. Dom Cobb teve lá seus problemas com a esposa que sempre interfere nas missões, durante o decorrer do filme descobrimos que ele e ela construíram um mundo inteiro no limbo e ela ficou louca, ai mostra a cena deles acordando na realidade, ambos estão um ao lado do outro esperando o trem vir os matar e após isso eles acordam na sala da casa  deles, sem ninguém ao lado deles, nem nenhum objeto, nem música nem nada, eles estão no chão apenas, não tem como nem eles terem caído, mas eles estavam na camada mais profunda dos sonhos onde  a morte básica não vai te trazer pra realidade, vai te levar apenas pra  uma camada anterior ao limbo, e teria que ter outras mortes, ou outros chutes até chegar no primeiro sonho e eles serem acordados por alguém do plano real. Ou seja, Dom Cobb não acorda na realidade  dele, acorda em um sonho anterior ao limbo, a esposa dele não ficou louca, ela sabia que tinha que morrer mais vezes até estar na realidade, mas Cobb perdeu a noção do que era real ou não e ficou no limbo, todo filme é um sonho dele.
Outro detalhe que comprova que é Cobb que está louco e não sua esposa é o” totem”. O totem é o objeto que  vai te indicar se você está no sonho ou na realidade, por isso é específico só o portador do totem deve conhecer seu peso, pois ele é fio de conexão com a realidade, um lembrete pra dizer que você está sonhando. Quando Ariadne, está pra entrar na missão, ela faz uma peça de xadrez e Dom tenta pegar e ela se nega trazendo a mente o ensinamento que “ninguém a não ser o portador deve tocar e conhecer o peso”, e era um teste que ela passou. Cobb usa  um peão como lembrete que era o totem da sua “falecida” esposa. Mas, quando viajamos pela memórias passados de Cobb, quando ele  está no limbo com Mau, ELE NÃO TEM TOTEM! Como ele ia saber o que era real ou não? Só Mau poderia saber porque só ela tinha totem, em nenhum momento do filme mostra o totem antigo de Cobb. Mas, no próprio limbo na cena onde a Mau decidi ficar no limbo e esconde o seu totem no cofre, Dom Cobb descobri isso e TOCA NO TOTEM NELA, o que não podia e que é um perigoso indicativo que  ele começa a se perder ai.
Se tudo é um sonho de Cobb e os outros personagens? Pra mim levando em conta essa teoria, os outros personagens seriam projeções  de Cobb.
E Mau, a vilã do filme? Bom ai tenho duas hipóteses. Primeira: ao se matar Mau se salva, e as aparições dela no filme são tentativas dela de salvar Cobb, mas ela sempre  leva um tiro e volta pra  realidade, mas essa hipótese está cheia de furos, primeiro que as vezes ela aparece simplesmente e some sem levar tiro nenhum e outra naquele plano do limbo eles fizeram o plano sozinho, arquitetaram somente os dois, então como eles iam despertar pra realidade sem um terceiro pra desperta-los, ou um dispositivo vindo da realidade. O que comprova minha segunda teoria e que é a principal: só Cobb é real e ele está apenas sonhando o filme todo e todos os outros personagens são apenas projeções.
Não acho que Christopher Nolan ia dar furos como o da morte simples no trem, ou do totem sem motivo algum, o que me motiva ainda mais nessa ideia.
Conspirem ai, e  achem furos nessa minha ideia e escrevam pra mim, se concordarem também, tamos ai pode falar que eu  fico feliz.
E quero assistir de novo pra ver acho alguma coisa a mais, boa sorte pra gente.

Boa domingueira

Perspectiva do momento

“Será que as abelhas sabem que a picada de defesa é sua sentença de morte? Que sua última esperança é um suicídio sem querer? O que fazer quando sua única proteção é a arma que te dá o tiro? Como se desprender do seu defeito de estimação? Existe alguma maneira razoável de dizer adeus para sua única esperança? E se o único prego que te mantém inteiro fosse o mesmo que te quebrou?”

Achei isso olhando arquivos antigos, eu li e reli isso umas mil vezes, ainda lembro-me da emoção que conduziu minhas mãos pelo teclado pra escrever esses questionamentos, lembro do cursor piscando e desafiando minha razão a tomar decisões… Porra definitivamente eu mudei, o meu “prego” não é mais o mesmo, meu defeito de estimação mudou, a forma como eu encaro o tal prego mudou, esse tal ditado que “um homem não entra no mesmo rio duas vezes” é tão real e cotidiano que fico surpresa de isso ser alheio as pessoas, ou apenas acontece só comigo, o que eu sinceramente duvido, acredito bem mais que as pessoas tem preguiça/medo/qualquer outro sentimento covarde, de se avaliarem antes e depois, medo de se olharem no espelho e encararem o efeito do tempo e das decisões.

Nietzsche falava que era um filósofo póstumo, que nasceu uma geração antes, que as pessoas do seu tempo não o entenderiam e sinceramente acho que isso tem muita verdade, não pelas pessoas serem incapacitadas ou não terem conhecimento o bastante para compreendê-lo, mas elas não vivenciavam o momento necessário pra entendê-lo, não havia nelas aquilo que transformariam as palavras dele em um canal direto com a alma, aquilo que arrebata e tira o fôlego e até hoje é assim é preciso que a alma esteja em sintonia com o livro, aliás, não só com os livros, mas com a arte em geral. Não há como julgar belo-feio, bom-ruim de uma maneira exata, arte é momento! Ouça sua música preferida de alguns anos atrás hoje, ela fará um sentido completamente diferente pra você no agora, não sei vocês, porém eu tenho trilhas sonoras pra momentos e posso afirmar que uma mesma música foi capaz de traduzir momentos antagônicos em que me encontrei.

Escrevi porque sempre me surpreendo ao reencontrar a “Keyla dos dois segundos atrás”, por isso escrevo, eternizo as frações do que fui pra me entender no hoje, ou apenas pra rir dos textos sem sentido e das emoções antigas. Sempre me dá um frio na barriga quando eu REALMENTE entendo a música e ela é capaz de virar indireta nas redes sociais, quem nunca? Não sejamos hipócritas.
E ai fica a famigerada música que também me inspirou o texto: http://www.youtube.com/watch?v=QST6Hn8SUk4
About a girl – Nirvana